Você já reparou que existe aquela música que entra na sua playlist e fica em loop por dias? Você não é o único, e o comportamento tem explicação. Pesquisas em neurociência e psicologia mostram que voltar para as mesmas faixas mobiliza circuitos cerebrais muito específicos, ligados a recompensa, memória e regulação emocional.

O Center for Music in the Brain (MIB), vinculado à Universidade de Aarhus, na Dinamarca, é um dos principais centros mundiais dedicados a entender como a música é processada pelo cérebro. O relatório anual de 2022 do centro mapeia diversas linhas de investigação sobre percepção musical, previsibilidade sonora e o papel da repetição na experiência estética.

Um dos pontos mais consolidados pela literatura é o envolvimento do sistema de recompensa. Quando o cérebro reconhece um padrão musical já conhecido, libera pequenas doses de dopamina, o mesmo neurotransmissor associado a prazer e motivação. É uma resposta de previsão atendida: o cérebro gosta de acertar o que vem em seguida.

Esse fenômeno também é descrito pelo conceito psicológico do efeito da mera exposição, proposto pelo psicólogo Robert Zajonc nos anos 1960, segundo o qual as pessoas tendem a gostar mais daquilo a que são repetidamente expostas. Uma pesquisa publicada na Frontiers in Psychology mostrou que repetir uma música aumenta o quanto a apreciamos, independentemente de a faixa ser simples ou complexa.

Mas não é só prazer. Uma meta-análise de neuroimagem publicada na Frontiers in Neuroscience em 2018 identificou que ouvir música familiar aumenta a conectividade entre o córtex auditivo e o hipocampo, área central no processamento de memórias. Isso ajuda a explicar por que uma faixa específica consegue transportar o ouvinte para um momento exato do passado, com cheiro, cenário e sensação.

A repetição também atua na regulação emocional. Quando a música é conhecida, o cérebro gasta menos energia tentando antecipar o que vem a seguir, o que libera espaço para o ouvinte processar emoções sem se sentir sobrecarregado. Quem volta para a mesma faixa em um momento difícil está, de certa forma, usando a familiaridade como ferramenta de autorregulação.

Há ainda um componente identitário. Como mostramos em matéria sobre as músicas que fazem você lembrar de uma versão antiga de si mesmo, certas faixas funcionam como marcadores biográficos. Reouvi-las é uma forma de revisitar quem fomos, sem precisar sair do lugar.

Isso não significa que ouvir o mesmo single 200 vezes seja sempre saudável. Pesquisadores alertam que, em alguns casos, a repetição compulsiva pode estar associada a estados emocionais intensos não resolvidos. Mas, na maioria das situações, o comportamento é comum, e até desejável: hits que envelhecem bem ganham camadas a cada audição, recompensando o ouvinte fiel.

No fim das contas, repetir uma música não é vício. É o cérebro reencontrando um lugar seguro, com dopamina, memória e identidade misturadas no mesmo refrão.

Referências:

Center for Music in the Brain — Annual Report 2022, Aarhus University

Repeated Listening Increases the Liking for Music — Frontiers in Psychology

Neural Correlates of Familiarity in Music Listening: A Systematic Review and a Neuroimaging Meta-Analysis — Frontiers in Neuroscience, 2018