O embate judicial entre Drake e a Universal Music Group (UMG) ganhou um novo capítulo no tribunal de apelações.

Em um documento apresentado ao Segundo Circuito e obtido pela Rolling Stone, a gravadora contesta a tentativa do rapper de reativar o processo por difamação relacionado à faixa "Not Like Us", classificando o movimento como “extraordinariamente hipócrita” e sem lógica.

Na petição, com 83 páginas, a UMG sustenta que a decisão da juíza federal Jeannette A. Vargas, que arquivou o caso em outubro do ano passado, foi correta ao tratar os versos como “opinião não passível de ação”, e não como afirmações factuais.



Segundo a gravadora, o conteúdo deve ser entendido dentro do contexto de uma disputa musical marcada por linguagem inflamada e acusações ofensivas de ambos os lados, o que afastaria a possibilidade de um ouvinte razoável interpretar a obra como relato verificável.

A UMG também argumenta que Drake tenta retirar palavras do ambiente em que foram ditas para transformá-las em difamação acionável, posição que, na visão da empresa, desvirtuaria um gênero criativo baseado em exagero, insulto e jogos de linguagem.

No material, a gravadora destaca ainda que o cantor teria utilizado a própria estrutura de distribuição da UMG para atacar Kendrick Lamar “em termos igualmente inflamáveis”, mas agora buscaria um critério distinto quando os versos são direcionados a ele.

O texto da decisão citada no recurso enfatizou o ponto central do caso: “A questão neste caso é se 'Not Like Us' pode razoavelmente ser entendido como uma afirmação factual de que Drake é pedófilo ou que ele manteve relações sexuais com menores”, e concluiu: “À luz do contexto geral em que as declarações na gravação foram feitas, o tribunal entende que não pode ser interpretado dessa forma.”

A disputa entre os artistas ganhou força em 2024, com uma sequência de músicas lançadas em resposta uma à outra. A gravadora reforça que as faixas funcionaram como um diálogo, mencionando, por exemplo, a conexão entre a linha “Diz aí, Drake, ouvi que você gosta das jovenzinhas” e o conteúdo de "Taylor Made Freestyle", em que Drake cantra o trecho: “Fala sobre ele gostar de garotas jovens".

Outro ponto rebatido pela UMG é a tese de que as letras poderiam ser consideradas difamatórias porque, em certos casos, versos de rap são aceitos como prova em processos criminais.

Para a empresa, esse cenário envolve padrões diferentes e não se aplica ao debate sobre interpretação artística no contexto do litígio em questão.

A gravadora acrescenta que Drake assinou, em novembro de 2022, uma petição criticando promotores por tratarem expressão criativa como fato, e usa isso para sustentar a acusação de incoerência, incluindo o trecho: "mais do que qualquer outra forma de arte, as letras de rap estão essencialmente sendo usadas como confissões na tentativa de criminalizar a criatividade e a arte negra", e que esse uso "é antiamericano e simplesmente errado."

Do lado do artista, o recurso apresentado em janeiro insiste que a música comunica, de forma “precisa” e “inequívoca”, uma afirmação factual, e acusa a UMG de ter promovido a faixa de maneira “implacavelmente” enganosa, provocando prejuízos relevantes.

O processo foi aberto por Drake em janeiro de 2025 contra a própria gravadora — e não contra Kendrick Lamar —, sob a alegação de que a divulgação buscou transmitir de forma "factual específica, inequívoca e falsa de que Drake é um pedófilo criminoso."

A UMG respondeu com moções para encerrar o caso e obteve vitória, incluindo a afirmação: “O autor, um dos artistas musicais de maior sucesso de todos os tempos, perdeu uma batalha de rap que ele mesmo provocou e na qual participou voluntariamente. Em vez de aceitar a derrota como o artista de rap despreocupado que ele frequentemente afirma ser, ele processou sua própria gravadora em uma tentativa equivocada de curar suas feridas."

Enquanto o trâmite segue, "Not Like Us" acumulou reconhecimento, vencendo Grammys de Gravação e Canção do Ano, e foi apresentada por Kendrick Lamar no show do intervalo do Super Bowl de 2025.

A próxima etapa do caso prevê que Drake entregue uma réplica ao novo documento da UMG até o dia 17 de abril.